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História Município Rio Grande (RS)

Rio Grande - Breve Histórico

Na arenosa Planície Litorânea, na margem sul do canal que liga a Laguna dos Patos ao Oceano Atlântico, na maior costa retilínea do mundo - de Laguna/Santa Catarina a Maldonado/Uruguai ? está localizada a cidade do Rio Grande.

Nos tempos da expansão marítima européia, capitaneada pelos povos da Península Ibérica, estas paragens, circundadas pelo maior sistema lagunar brasileiro e pelo Oceano Atlântico, varridas pelos ventos, dificultavam a chegada daqueles que queriam conquistá-las.

No início do século XVI, em conseqüência de acordos diplomáticos entre Portugal e Espanha, apadrinhados pela Igreja de Roma, estas terras pertenciam à Espanha (Tratado de Tordesilhas). Mas portugueses, tal como os espanhóis, já as olhavam de longe, do mar.

A barra da Laguna dos Patos, mais tarde chamada de -barra diabólica-por Gomes Freire de Andrada, parecia aos navegantes, que a olhavam das embarcações, a foz de um grande rio.

Os portugueses o chamaram de Rio de São Pedro (expedição de Martim Afonso em 1532). Na cartografia dos espanhóis aparecia como Rio Grande.

Com o tempo, Rio Grande de São Pedro.

E a posse desse território inóspito e estratégico (política e economicamente) foi intensamente almejada e disputada por Espanha e Portugal durante séculos.

Para Portugal, no início do século XVIII, ocupá-lo significava a defesa e o abastecimento da região mineira recém descoberta no interior da Colônia. Defender dos espanhóis que vinham pelo interior e defender dos franceses e holandeses que vinham pelo mar. Abastecer com carnes, couros e mulas de transporte às áreas mineradoras que não produziam alimentos e precisavam escoar a produção aurífera.

Naquele momento os ibéricos já tinham perdido a posição de vanguarda e preponderância no continente europeu. Era, então, dos ingleses a supremacia. E é aos ingleses que Portugal alia-se para manter suas colônias: em troca de favores comerciais dos portugueses, a proteção política e militar da Inglaterra (Tratado de Methuen, 1703).

Rio Grande foi oficialmente fundada em 19 de fevereiro de 1737 pelo Brigadeiro José da Silva Paes, como parte de um plano político amplamente discutido entre as autoridades metropolitanas e coloniais, mas mantido em sigilo para não despertar a atenção dos espanhóis.

A expedição que chegou em Rio Grande zarpara de Lisboa em 25 de março de 1736, incorporara outros elementos no Rio de Janeiro (Silva Paes, inclusive) e fizera escala em Santa Catarina. Dirigira-se à Colônia do Sacramento, ajudando-a em sua luta contra Buenos Aires, tentara conquistar Montevidéu, desistira de Maldonado, deixara -pontos de guarda- no Chuí e em São Miguel e, finalmente, retornando, cumpre a ordem real de levantar um presídio (guarnição militar) que teria, além das funções de defesa da costa e apoio a Sacramento, atribuições fiscais, a cobrando a quinta parte dos couros e gados devidos ao rei.

Chamou-se Jesus-Maria-José este presídio.

Para a ocupação do Canal do Rio Grande, Silva Paes contou com o apoio e a orientação de Cristóvão Pereira de Abreu, homem com grande conhecimento da região, aliado dos índios minuanos no abate do gado chucro, que desfrutava do monopólio dessa caça e da exportação de couros pela Colônia do Sacramento, desde 1702.

Encontravam-se na Ilha de Santa Catarina em julho de 1736 e, enquanto Silva Paes ia por mar até Sacramento, Cristóvão Pereira vinha pela restinga trazendo gente e gado para esperar no Canal à volta dos navegantes. Silva Paes fundeia ao largo e, de bote, chega à praia, recebendo o abraço acolhedor de Cristóvão Pereira.

Ao Presídio de São Pedro do Rio Grande é dada a qualificação de Comandância Militar. O Brigadeiro foi substituído, em setembro de 1737, pelo Mestre de Campo André Ribeiro.

Para os que aqui chegaram naquela expedição (soldados, alguns escravos, alguns agregados), os primeiros tempos foram duríssimos: fome, sede, frios, doenças, rigor disciplinar, as piores condições de trabalho -em 1742, rebelam-se os "Dragões do Rio Grande", prendem os oficiais e colocam no comando o celebrado Cabo Pipoca. Só encerraram o movimento rebelde com a chegada de Silva Paes, trazendo mantimentos e parte dos soldos atrasados.

Aos poucos, chegaram alguns índios minuanos, mulheres e crianças guaranis, peões espanhóis vindos de Santa Fé e Corrientes, alguns moradores de Sacramento, alguns povoadores do Rio de Janeiro e, finalmente, açorianos.

Para estes povoadores, as condições de trabalho e vida também foram extremamente adversas. A coroa portuguesa, sem fundos para garantir empresa de tamanho vulto, não cumpria as promessas feitas aos colonos recém-chegados e explorava ao máximo o trabalho de seus soldados e funcionários do baixo escalão.

Foi com essa gente de muita fibra que Portugal conseguiu garantir a soberania lusitana nos confins meridionais de sua imensa colônia americana.

O presídio transformou-se em povoado e este foi elevado à condição de Vila em 1747.

Em 1760, criou-se a Capitania do Rio Grande de São Pedro, passando a vila do mesmo nome a ser sua capital. No entanto, os conflitos na região platina continuaram e, em 1763, a Vila do Rio Grande foi invadida e ocupada pelos espanhóis, que nela permaneceram por 13 anos.

Por ocasião desta invasão, o governador, Coronel Clói Madureira, fugiu para o lado Norte do Canal acompanhado de parte da população (os que tinham bote ou podiam pagar pela travessia) e a capital da Capitania foi transferida para a recém-criada Vila do Viamão. Os colonos que ficaram, impedidos pelos espanhóis de permanecer no centro da Vila, deram origem a quatro núcleos de povoamento: Torotama, Povo Novo, Saco da Mangueira e Carreiros.

Em abril de 1776, sob o comando do Sargento-Mor Rafael Pinto Bandeira, os portugueses retomam Rio Grande.

Aos poucos, retornavam muitos dos que haviam fugido e o trabalho de reconstrução iniciava em meio a epidemias, das quais a pior foi a de varíola, o que muito debilitou a população para o trabalho. Mas, em 1780, Rio Grande já contava com cerca de dois mil habitantes livres e seiscentos escravos, sendo a maior da Capitania.

Com o Tratado de Santo Ildefonso (1777), a Vila perde territórios, pois passam a existir os chamados Campos Neutrais entre as possessões portuguesas e espanholas. Neles ficavam localizados as lagoas Mirim e Mangueira. O limite sul deixava de ser o Chuí e passava a ser o Taim. Em compreensão, são incorporados territórios a oeste: os campos do São Gonçalo, do Pelotas e do Cerro Pelado. É dividida, então, em três distritos:

1º Distrito: Vila do Rio Grande de São Pedro.

2º Distrito: Povo Novo.

3º Distrito: Cerro Pelado.

Tal como os espanhóis não haviam respeitado o Tratado de Madri (1750), os lusitanos também não respeitaram o Tratado de Santo Ildefonso.

No final do século XVIII, a economia da Capitania do Rio Grande de São Pedro gira em torno da pecuária e está começando a ?era do charque?. As charqueadas multiplicam-se e trazem desenvolvimento regional, com a vocação comercial do porto do Rio Grande começando a definir-se com mais clareza, deixando devagar sua função militar de defesa da costa.

O grande obstáculo para a plena realização desse destino era ainda a barra (a barra diabólica de Gomes Freire) com seus bancos de areia atravancando a passagem. Pela ação dos práticos, chegou-se a dominar o conhecimento das condições do canal.

A partir de 1795, uma pequena catraia ia e vinha pela barra indicando por sinais qual o nível das areias.

Ao iniciar-se o século XIX, a Vila do Rio Grande de São Pedro havia se transformado no principal centro de comércio - legal e ilegal - da Capitania. O movimento portuário condicionou o crescimento sócio-econômico e a modernização urbana da antiga Comandância Militar.

A classe abastada é formada por comerciantes que, em 1804, conseguem a autorização para instalação de uma Alfândega. Em 1809 foi criado o município do Rio Grande, com instalação oficial em 1811.

A dragagem do cais e a construção do porto, concluídas em 1823, trouxeram para o município os navios grandes que, antes, só tinham acesso ao porto de São José do Norte. Em 1832, Francisco Xavier Ferreira cria para os rio-grandinos um dos primeiros jornais da Província ? O Noticiador, com linha política liberal.

Em 1835, em pleno Período Regencial do Império do Brasil, a Vila do Rio Grande é elevada à qualificação de cidade. E, durante a Guerra dos Farrapos, com Porto Alegre ameaçada pelos revoltosos, é feita novamente capital da já então Província do Rio Grande. Os legalistas se protegiam dos farroupilhas pela linha d’água do Canal São Gonçalo e recebiam reforços por mar.

A partir da década de 1850, o comércio atacadista de importação/exportação ganha impulso e faz crescer o movimento de mercadorias no único porto marítimo da Província Sulina. Em 1855 já eram realizados estudos para melhorar as condições de navegação e segurança da barra, com o objetivo de diminuir a demora na entrada e saída das embarcações. Mas só em 1908, já na República, iniciou-se a construção dos molhes que fixaram o canal de acesso ao porto, obra concluída em 1916.

É também do início do período republicano brasileiro o incremento da diversificação industrial rio-grandina: tecelagem, charutos, conservas alimentícias, velas (em 1913 havia dezoito estabelecimentos industriais). Porém, é do final do período imperial a instalação da primeira fábrica da Província, inaugurada em Rio Grande em 1874, a Fábrica de Tecidos Rheingantz.

Em 1917, inicia-se no município a construção do Frigorífico Swift, que influenciou decisivamente o fluxo migratório para a cidade, fazendo crescer a antiga vila dos Cedros, hoje bairro Getúlio Vargas e teve papel importante na vida econômica e social do Rio Grande. A partir de 1920 a indústria diversifica-se ainda mais com o crescimento da indústria do pescado, bolachas e bebidas. Em 1937 foi fundada a Refinaria de Petróleo Ipiranga, com grande apoio do governo federal, chefiado por Getúlio Vargas.

Em virtude do crescimento do emprego industrial, cresce também a organização operária da qual é digna representante a histórica União Operária, espécie de central que congregava diversos sindicatos.

Os anos 60 do século XX marcam um período de estagnação e decadência econômica, gerando um grande empobrecimento da população trabalhadora com o fechamento de grande número de fábricas. A ditadura militar, instalando-se no Brasil em 1964, percebendo a localização estratégica do município e o valor do seu porto, faz grandes investimentos estruturais, construindo o chamado superporto, melhorando o acesso rodoviário a ele e atraindo grandes indústrias para que se instalassem nos terminais portuários, transformando, ainda, a cidade em "Zona de Segurança Nacional". Neste período, houve um aumento da degradação ambiental, ocasionada por dejetos industriais não controlados.

Hoje, Rio Grande passa por uma reestruturação da atividade portuária, ampliando-a e modernizando-a, colocando-se como um dos principais portos brasileiros e importante porto do Mercosul. Foi desenvolvido o pólo naval, com os estaleiros, culminando na construção de uma plataforma petrolífera, a P-53. Além disso, é importante cidade universitária, centro turístico com a mais bonita praia sulina e importante pólo comercial.

Disse um dia um cronista que cada povo tem o vento que merece. Numa terra de fortes não poderia soprar um vento chamado brisa. Nela, os ventos se chamam nordestão... ou minuano.

Formação Administrativa

Distrito criado com a denominação de Rio Grande, por provisão de 06-08-1736.

Elevado à categoria de vila com a denominação de Rio Grande em 17-07-1751. Sede na antiga povoaoção de Rio Grande. Constituído do distrito sede. Instalado em 16-12­1751

Elevado à condição de capital em 1745.

Em 1763, o município de Rio Grande foi extinto.

Elevado novamente à categoria de vila com a denominação de Rio Grande, por alvará de 27-04-1809 e provisão de 6 de outubro de 1809. Reinstalado em 16 de fevereiro de 1811.

Elevado à condição de cidade, por lei provincial nº 5, de 27-06-1835.

Por lei provincial nº 35, de 06-05-1846 e ato municipal nº 29, de 14-07-1906, são criados os distritos de Taim e Povo Novo e anexado ao município de Rio Grande.

Por ato municipal nº 76, de 09-12-1896, é criado o distrito de Mangueira e anexado ao município de Rio Grande.

Por ato municipal nº 532, de 31-12-1909, é criado o distrito de Júlio de Castilhos e anexado ao município de Rio Grande.

Em divisão administrativa referente ao ano de 1911, o município é constituído de 5 distritos: Rio Grande, Julio de Castilhos, Mangueira, Povo Novo e Taim.

Assim permanecendo em divisões territoriais datadas de 31-XII-1936 e 31-XII­1937.

Pelo decreto estadual nº 7199, de 31-03-1938, o distrito de Mangueira passou a denominar-se Cassino. Sob o mesmo decreto o distrito de Júlio de Castilhos passou a denominar-se Quinta.

Em divisão territorial datada de 1-VII-1950, o município é constituído de 5 distritos: Rio Grande, Cassino ex-Mangueira, Povo Novo, Quinta ex-Júlio de Castilhos e Taim.

Assim permanecendo em divisão territorial datada de 1-VII-1960.

Pela lei municipal nº 3414, de 08-10-1979, é criado o distrito de Ilha dos Marinheiros. Sob a mesma lei o distrito de Cassino é extinto, sendo seu território anexado ao distrito sede do município de Rio Grande.

Em divisão territorial datada de 2001, o município é constituído de 5 distritos: Rio Grande, Ilha dos Marinheiros, Povo Novo, Quinta e Taim.

Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2007.

Alterações toponímicas distritais

Mangueira para Cassino alterado, pelo decreto estadual nº 7199, de 31-03-1938.

Júlio de Castilhos para Quinta alterado, pelo decreto estadual nº 7199, de 31-03-1938.

Fonte: LESSA, Barbosa. Rio Grande do Sul, Prazer em Conhecê-lo. 3ª ed. Porto Alegre: Editora AGE, 2000. VIEIRA, Eurípedes Falcão. Rio Grande, Geografia Física, Humana e Econômica. 1ªed. Porto Alegre: Editora Sagra, 1983. MACHADO, Sônia. O Longo Amanhecer do Sul. 1ªed. Porto Alegre: Editora mercado Aberto, 2000. CESAR, Guilhermino. Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul. 3ªed. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1998. PRADO, Daniel. Operariado e Meio Ambiente: Um Estudo sobre os Trabalhadores da Indústria de Rio Grande. 1ªed. Rio Grande: Editora FURG, 2001. QUEIROZ, Maria Luisa. A Vila de Rio Grande de São Pedro. 1ªed. Rio Grande: FURG, 1987. ENCICLOPÉDIA dos Municípios Brasileiros. Vol. XXXIV. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Geografia e Estatística, 1959.

Autor do Histórico: MARIA DO CARMO R. TRUGILLO

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